O Poder do Silêncio e da Atenção

Uma jornada interior de 100 horas de meditação Vipassana


Há alguns dias retornei da minha primeira experiência com a técnica de Meditação Vipassana - um retiro de 10 dias no Centro Dhamma Santi, em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro; junto com um grupo de 100 pessoas. Nesse post vou contar todos os detalhes de como foi essa experiência!


A motivação

Há pelo menos três anos, venho me comprometendo com o Yoga como caminho de auto aperfeiçoamento e auto conhecimento - uma maneira de, verdadeiramente, viver a vida. O processo de ensinar e aprender essa sabedoria tem sido contínuo e profundo e, naturalmente, essa trilha me levou até a vontade de olhar com mais atenção para a minha prática da meditação. Esse é um caminho esperado, veja o porquê:


O Yoga é composto por oito etapas (angas): Yamas (princípios éticos em relação ao mundo), Nyamas (princípios éticos em relação a si ), Asana (estudo das posturas do corpo), Pranayama (estudo do fluxo da energia vital - prana - por meio da respiração), Prathyahara (estudo dos sentidos), Dharana (estágio inicial de focar a concentração), Dhyana (estado intermediário de concentração focada e prolongada) e Samadhi (estado meditativo profundo, suspensão da percepção que separa o eu e o todo).


O processo de praticá-lo de forma integral é gradativo e interdependente, por isso, a partir do momento em que alguém se dedicada a praticar os valores da filosofia na sua relação consigo e com os outros (yamas e nyamas) e ter seriedade e constância em sua prática pessoal (asana, pranayama e prathyahara) é normal que a próxima parada seja o contato e o estudo dos estados meditativos que levam ao Samadhi (união com o todo).


Eu não sabia exatamente o que esperar, mas achava incrível a possibilidade de aprender em uma imersão de 10 dias de silêncio uma técnica milenar ensinada por Buda, de forma totalmente independente de crença ou religião - e lá fui eu.



A rotina

  • 4:00h - Sino para despertar;

  • 6:30 - 8:00h - Café da manhã;

  • 8:00 - 9:00h - Sessão de meditação em grupo na sala coletiva;

  • 11:00 - 12:00h - Intervalo de almoço; meditação no quarto ou na sala, segundo instruções do professor;

  • 11:00 - 12:00h - Intervalo de almoço;

  • 13:00 - 14:30h - Meditação na sala ou no quarto e entrevista agendada com professor (sobre a técnica ou quaisquer dificuldades ou acontecimentos em relação à meditação);

  • 13:00 - 14:30h - Meditação na sala ou no quarto;

  • 14:30 - 15:30h - Sessão de meditação em grupo na sala;

  • 15:30 - 17:00h - Meditação na sala ou no quarto segundo instruções do professor;

  • 17:00 - 18:00h - Pausa para o chá;

  • 18:00 - 19:00h - Sessão de meditação em grupo na sala;

  • 19:00 - 20:15h - Palestra;

  • 20:15 - 21:00h - Sessão de meditação em grupo na sala;

  • 21:00 - 21:30h - Horário para perguntas públicas na sala de meditação (sobre a palestra da noite e também sobre a técnica);

  • 21:30h - Hora de se recolher para o quarto;

  • 22:00h - Pagar das luzes.


Acomodações

Existem dois tipos de acomodação disponíveis - suítes ou quartos coletivos (mais ou menos de três a cinco pessoas). A administração organiza os alunos nas dependências de acordo com as necessidades de cada um. Os ambientes são simples e confortáveis.


Alimentação

A alimentação oferecida é vegetariana e deliciosa - dá para sentir no paladar e na apresentação o carinho com que os servidorxs preparam as refeições.


As opções de café da manhã eram fixas: frutas, iogurte, mingau, passas e ameixas cozidas, pão integral, geleia de goiaba e manteiga. Para beber chá, leite, café solúvel, achocolatado e cevada em pó. Ás vezes rolavam alternativas à manteiga e ao leite para os veganos.


No almoço tínhamos opções de salada, molhos, grãos, massas, legumes e sobremesa. Sempre com opções sem derivados de animal. Para beber, chá.


O chá da tarde é fixo, como o café da manhã. Três variedades de frutas, duas unidades para cada pessoa. Para beber, chá ou leite. Os alunos antigos não fazem essa refeição, eles param de comer após o almoço e, nesse horário, ingerem apenas água quente com limão.


Existe uma campainha para se comunicar com a cozinha, você pode utilizá-la para falar com quem estiver lá, caso tenha alguma necessidade especial. Não é permitido comer fora do refeitório ou fora dos horários estipulados.


O tempero é bem variado e perfumado, com pouquíssimo sal.



Preceitos (Silas) e Regras

Em vários momentos do processo de aplicação para vaga, e até mesmo na chegada ao centro de meditação, é salientado o aspecto da disciplina durante o curso. Se inscrever significa, então, aceitar e se reconhecer capaz de praticar todos os itens do código de conduta, incluindo os horários da programação.


No início, pode parecer um pouco assustador, mas ao longo do curso eu pude perceber a importância de cada regra na criação de um ambiente favorável para o mergulho interno de cada um. É preciso confiar e entregar! Vamos a eles:


Preceitos

Todos os alunos concordam em seguir as seguintes cinco diretrizes (silas):

  1. Não matar qualquer ser (incluindo insetos e outros animais);

  2. Abster-se de roubar;

  3. Abster-se de qualquer atividade sexual;

  4. Abster-se de mentir;

  5. Abster-se de usar qualquer intoxicante (salvo remédios prescritos).

Os alunos antigos (aqueles que já concluíram um curso de 10 dias) devem seguir mais três preceitos:

6. Não comer após o meio-dia;

7. Não usar adereços;

8. Não dormir em camas elevadas.


Regras

  • Observar o nobre silêncio: não é permitido conversar, fazer gestos, comunicar com olhares ou mandar bilhetes para os outros meditadores. Qualquer problema prático pode ser conversado com xs gerentxs e toda questão em relação a meditação deve ser sanada com xs professorx;

  • Durante a meditação, deve-se seguir as instruções e orientações exatamente como são dadas, com confiança e entendimento. Não acrescente nem omita nada da técnica. Qualquer dúvida quanto ao método pode e deve ser sanada com os professorxs nos horários destinados a isso;

  • Suspender qualquer outra prática espiritual ou religiosa durante o período do curso, para que você possa sentir os benefícios de Vipassana de forma justa e pura. Aqui se inclui canto de mantras, queima de incensos, Yoga, jejum, orações e etc;

  • Segregação entre homens e mulheres. Essa separação ocorre em todos os ambientes, começando no primeiro dia e terminando no último: refeitório, alojamentos e sala de meditação;

  • Evitar contato físico com qualquer pessoa;

  • Não praticar nenhum exercício físico além da caminhada, por questões de limitação de espaço e distração dos outros meditadores;

  • Não usar objetos religiosos: terços, japamalas, cristais, imagens, etc;

  • Não usar tabaco, rapé ou qualquer outra substância;

  • Usar roupas simples, modestas e confortáveis. Nada colante, transparente ou curto, o comprimento ideal é abaixo dos joelhos. Não é permitido ficar sem camisa nem despir-se para tomar banho de sol;

  • Permanecer nas dependências do centro durante todo o curso, saindo somente com o consentimento do professor.

  • Abster-se de qualquer contato com o exterior. Em caso de emergência, os familiares e amigos poderão sempre entrar em contato com a administração;

  • Não usar nenhum dispositivo eletrônico: celulares, laptops, tablets e outros devices ficam guardados com a gerência até o final do curso;

  • Não usar gravadores ou câmeras, a menos que exista uma autorização prévia;

  • Não levar livros, instrumentos, ou qualquer material de escrita. É importante suspender qualquer entretenimento externo, permanecendo concentrado somente no seu processo com a meditação. Esta é uma técnica eminentemente prática, por isso, anotações também não são permitidas.


Buddha, Dharma e Sangha

A Joia Tríplice, formada por esse três elementos é onde "tomamos refúgio" durante todo o curso, é uma estrutura de suporte e confiança. A primeira joia é Buddha representando, não uma pessoa específica, mas a própria busca pelo caminho do conhecimento de si mesmo; a segunda é Dharma, a lei fundamental da natureza - a que tudo rege; e a terceira é Sangha, que são todas as pessoas que estão unidas com alegria nesse mesmo propósito.



A técnica

Parte 1 - Despertar da consciência (Samma Samadhi)

Vipassana significa "ver as coisas como são", uma técnica indiana de meditação com mais de 2500 anos de idade. Ela foi resgatada e passou a ser ensinada por Gautama, o Buda, como uma ferramenta para lidar com o sofrimento e viver uma vida de felicidade, paz e harmonia. O caminho percorrido para atingir esse objetivo passa por Sila (moralidade, são os preceitos explicados acima), Samadhi (experiência direta de um estado de consciência elevado) e Pãnia (sabedoria).


Entende-se que, para isso, precisamos treinar a nossa mente, pois o sofrimento não vem de fora, ele começa quando fazemos a leitura mental de certas situações e reagimos a elas. Então, nos identificamos e a negatividade tem início. Portanto, a técnica visa desenvolver a consciência, ensinando-a como lidar com as mais diversas situações que se apresentam em nosso cotidiano, sejam elas agradáveis ou desagradáveis.

Construir a sua própria felicidade, portanto, parte do princípio de estar no comando das suas reações, sair do automático e estar presente e consciente a cada momento. Coisas boas e ruins acontecem a todo tempo, em todos os lugares do mundo; e é muito pouco provável que possamos controlar todas elas. Por isso, com Vipassana, aprendemos a olhar para dentro e tomar as rédeas da nossa mente a partir do momento em que temos contato com essas fagulhas, evitando que se alastrem descontroladamente.


O curso tem caráter prático, de experiência. Portanto, todos os ensinamentos serão experimentados dentro da moldura do corpo, que é o nosso instrumento de contato com a realidade nessa vida. Para isso, dois pilares são essenciais nessa caminhada: a consciência das sensações físicas e o exercício da equanimidade.

Nos primeiros três dias aprendemos a meditação Anapana, que significa "atenção à respiração". Para nos concentrarmos de forma profunda é necessário um objeto, algo para focar a nossa mente - e o que passamos a observar é o fluxo de ar que entra e sai pelas narinas. Nesse ponto do curso, pede-se que não sejam utilizados nenhum tipo de visualização ou vocalização - para preservar a força e a pureza da técnica. Com um objeto vocal ou visual você concentra a sua mente facilmente, mas esse não é o objetivo aqui. Com Anapana, começa-se a desenvolver um estado aguçado da mente, ideal para nos deixar atentos e alertas ao que acontece de forma natural em nosso corpo.


A respiração está presente em todos os seres e nos acompanha do início ao fim da vida. Ela também tem dois aspectos muito importantes: está ligada aos nossos estados emocionais (quando nos irritamos, ficamos mais ofegantes; quando estamos tranquilos a respiração é longa e suave) e a mente consciente (podemos respirar mais forte ou prender a respiração se quisermos) e inconsciente (durante o sono, por exemplo, permanecemos respirando sem perceber). Por isso, ela é o objeto ideal para aprofundar a sua capacidade de auto observação, uma verdadeira ponte entre o denso e sutil.


O processo é realmente como se estivéssemos amolando uma faca velha. No início, nossa mente não tem nenhuma precisão, você mal consegue se concentrar na sua respiração de tão falante que está a sua cabeça, mas aos poucos todo esse barulho vai cessando e a sua percepção vai se tornando afiada, presente e certeira.


Meditando com Anapana você começa a observar a sua respiração como ela é no exato momento em que acontece, sem desejar alterá-la; passando da percepção do fluxo pelas narinas, para a temperatura do ar, até as sensações que o ato inspirar e exalar provoca ao passar pela região do buço.


É incrível observar a evolução a cada dia: no início mal somos capazes de identificar qual narina está mais desobstruída, mas em torno do terceiro dia já estamos identificando os mais diversos tipos de sensação (calor, frio, coceira, vibração, expansão, retração, pulsação, repuxado, pontadas, cócegas) nessa parte. Dessa forma, desenvolve-se o Samma Samadhi, o tipo de concentração correta para que possamos mergulhar na etapa seguinte.



Parte 2 - purificação da consciência (Pania)

Na tarde do dia três entramos efetivamente na técnica Vipassana, todo o processo até aqui foi uma preparação para ter as ferramentas corretas para acessar e purificar o campo do profundo.


Buda entendia que nossa mente inconsciente não é um canto esquecido de nossa percepção, pelo contrário, ela está presente o tempo todo. Mas a linguagem que ela entende não é a das palavras, nem a da razão, e sim a das sensações físicas.

A meditação Vipassana consiste, então, em expandir a consciência aguçada que desenvolvemos nos três primeiros dias - da respiração, para todo o corpo. Experimentando todas as sensações que aparecerem. Simples assim? Não. Lembra do segundo pilar que falei no começo? Equanimidade, essa é a chave.


Cada vez que vier uma sensação, não importa se ela é boa ou ruim, você deve apenas observar, sem se identificar. Não reaja com nenhum tipo de aversão (julgar muito ruim, não querer nunca mais), nem avidez (julgar muito bom, querer de novo e de novo), apenas olhe com equanimidade e entenda a característica comum por trás de todas elas: a impermanência.

Observando a natureza podemos reconhecer Anitcha, a lei da impermanência que mantém tudo está em constante mutação: a água ora é mar, ora é rio, ora é chuva, ora é umidade no ar; os animais - ora são preza, ora caçadores; a lua - ora é nova, ora é crescente, ora é cheia e ora é minguante. Olhando mais de perto, no nível atômico, a realidade é a mesma: pura energia, nenhuma solidez, partículas totalmente dinâmicas e mutáveis.


Somos parte dessa mesma natureza e a ordem que rege a todos nós é o movimento constante; quando nos distanciamos dessa percepção e nos vemos como separados do todo, perdemos a sintonia com esse fluxo e ficamos estagnamos, entediados, desenergizados, apáticos; e essa é a razão de todo o nosso sofrimento - o apego gerado pela incompreensão da lei da impermanência.

Vipassana é um exercício de libertação (gradativo, sério, constante e disciplinado) das raízes da nossa negatividade. Na medida em que experimentados todos os tipos de sensações (boas e ruins) e não ligamos a elas o nosso velho estoque de reações automáticas, vamos limpando, um a um, os nossos sankaras (condicionamentos) do presente e também do passado.

Um exemplo: você tem o hábito de fumar. Dentro do curso isso não é permitido. Logo, você vai ter 10 dias para observar a sua vontade de fumar. Fazendo o exercício de olhar isso com equanimidade você irá perceber que o que te dá prazer não é especificamente o cigarro, em si, mas a sensação ligada a esse objeto (pode ser de aceitação social, relaxamento, pausa, introspecção, diversão, auto sabotagem, etc). E como todas as sensações são impermanentes, essa também irá passar.


Alguns condicionamentos são rasos (adquiridos recentemente, sem muito apego), outros são muito profundos (crenças que vem de família, ou vícios que temos reforçado durante toda a nossa vida) e isso irá definir também o quanto de trabalho, auto controle e determinação você irá precisar para libertar-se disso. Por isso, saiba, Vipassana não é uma meditação relaxante nem que promete resultados instantâneos sem esforço - muitas sombras serão encontradas no caminho e será necessário muita persistência.


Nos primeiros dias de meditação, as sensações são bem rígidas e concretas: formigamento, dor, pressão; e aos poucos elas vão se tornando mais sutis, evoluindo para vibrações uniformes por todo o corpo.


Isso acontece devido a mudança na percepção causada por todas as disciplinas que estão sendo seguidas (silêncio, sono, alimentação moderada com pouco sal, caminhadas leves em um local limitado, 10/11 horas de prática por dia).


É como uma escavação arqueológica: cavando raso em vários locais diferentes você nunca irá encontrar nada, mas quando se concentrar numa área menor e aprofundar-se com atenção, tesouros que sempre estiveram ali e nunca foram percebidos antes, irão se revelar.


Parte 3 - Metta Bhavana

No último dia de curso aprendemos Metta (amor incondicional) Bhavana (desenvolvimento), uma meditação que tem como propósito enviar energia de amabilidade, paz, perdão e compaixão para nós, nossas relações e ambientes.


Ela dura cerca de 5 minutos e é feita após uma sessão de Vipassana e um breve relaxamento. Para quem passou dias trabalhando arduamente com as mais diversas sensações, memórias e crenças, esse momento é como um afago na alma.



Dia a dia

Chegada (dia 0)

- O Check in é feito no fim da tarde. Chegando no Centro de Meditação, você preenche uma ficha e guarda seus pertences não permitidos com os organizadores (celular, computador, livros, objetos religiosos, papel, caneta, etc). Depois, você é encaminhado para a sua acomodação, estando livre para levar sua mala para o quarto, tomar um banho, conhecer os entornos do alojamento e conversar com os outros alunos.

- Ás 18h é servida uma sopa no refeitório. Lá mesmo, às 19:00h é feita uma breve reunião em que os gerentes dão detalhes sobre o funcionamento do curso (rotina, disciplinas, regras).

- Às 20h todos se encontram na sala de meditação para a abertura do curso. Lá nos comprometemos a seguir os silas e fazemos um pedido formal para aprender a meditação Anapana. O término é por volta das 21:00h e aqui se inicia-se o nobre silêncio.


Dia 1

- Meditação Anapana;


Dia 2

- Meditação Anapana;


Dia 3

- Med